A enxaqueca não é só uma dor de cabeça forte. Como nota o Dr. Eduardo Carabetta – médico neurologista –, a enxaqueca é uma condição neurológica complexa, que pode afetar a qualidade de vida de milhões de pessoas. Trata-se de um tipo de dor de cabeça primária, ou seja, que não é causada por outra doença. Caracteriza-se principalmente por uma dor pulsátil, latejante, que pode durar de algumas horas até vários dias. E pode ir além da dor, sendo acompanhada por náuseas e vômitos, tonturas, sensibilidade à luz, ao som e a cheiros fortes. Algumas pessoas têm crises tão intensas que precisam se isolar em ambientes escuros e silenciosos. 

A crise de enxaqueca clássica se manifesta em diferentes fases. Como descreve o Dr. Eduardo, ela inicia pelos pródromos, o que significa que, algumas horas ou até dias antes da crise, pode haver mudanças de humor, bocejos frequentes, fome exagerada ou mesmo cansaço. Depois, embora não em todos os pacientes, vem a aura, caracterizada por alterações neurológicas, em geral sensitivas, mas também motoras em alguns casos, como, por exemplo: pontos brilhantes na visão, formigamentos ou mesmo dificuldade para falar. À aura, sucede a crise, uma dor que geralmente começa de um lado da cabeça, tem caráter latejante e pode piorar com o esforço físico ou estímulos sensoriais, como luminosidade, odores, etc. Após a crise, vem a fase de pósdromo, durante a qual pode ocorrer um cansaço extremo, dificuldade de concentração e sensação de “mente lenta”. 

O Dr. Eduardo nos conta que a enxaqueca tem diversos gatilhos, ou seja, situações que predispõem o enxaquecoso a desenvolver crises. Alguns dos gatilhos mais comuns incluem fatores hormonais – como crises relacionadas a ciclos menstruais –; estresse e privação de sono; alimentação – alguns alimentos como café, chocolate, queijos maturados, embutidos e vinho tinto podem piorar as crises –; fatores ambientais – como luzes intensas, odores fortes e mudanças climáticas podem precipitar episódios –; e o jejum prolongado, que também pode ser gatilho para algumas pessoas.

A enxaqueca não tem cura, mas pode ser controlada. O Dr. Eduardo explica que o tratamento é dividido em duas frentes. “O tratamento das crises envolve analgésicos, anti-inflamatórios e, eventualmente, medicações específicas, que chamamos de triptanos, para ajudar a aliviar a dor e abortar a crise. Já o tratamento preventivo ou profilático é mais indicado para pacientes que têm crises frequentes ou intensas, podendo-se então lançar mão de medicações, ajustes na alimentação e mudanças no estilo de vida”. Ainda, segundo nos conta o Dr. Eduardo, “Hoje temos um avanço enorme no tratamento da enxaqueca graças às terapias anti-CGRP. O CGRP – o peptídeo relacionado ao gene da calcitonina – funciona como um gatilho químico para a dor; ele amplia a inflamação nos vasos do cérebro durante a crise. Os novos medicamentos – que incluem anticorpos monoclonais, aplicados mensal ou trimestralmente, e comprimidos da classe dos gepants – bloqueiam justamente esse peptídeo ou o receptor dele. Na prática, o que vejo no consultório é uma diminuição de 50 % – às vezes mais – no número de dias com dor por mês, até mesmo em pacientes em que os betabloqueadores, anticonvulsivantes ou antidepressivos já haviam falhado. Os efeitos colaterais costumam ser leves: no caso dos anticorpos, nota-se uma pequena reação no local da injeção; no caso dos gepants, algum desconforto gastrointestinal. Essas terapias já estão aprovadas no Brasil para prevenção – e, em algumas apresentações orais, até mesmo para abortar crises —, mas precisam de prescrição de um neurologista, por serem medicações específicas e de elevado custo. Para quem convive com enxaqueca crônica ou refratária, no entanto, podem representar uma radical mudança de vida.”.

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