O Dr. Eduardo Carabetta – médico neurologista – nos conta que a neuromielite óptica, ou doença de Devic, ou, ainda, NMO, é uma doença inflamatória autoimune que, por muito tempo, foi tratada como se fosse esclerose múltipla. “Trata-se, no entanto, de uma doença diferente, que demanda outro tipo de cuidado e atenção.”
Como ele explica, o sistema imunológico de pessoas com neuromielite óptica ataca, principalmente, dois alvos muito específicos: os nervos ópticos, que transmitem a visão do olho para o cérebro; e a medula espinhal, responsável por comandos motores e sensitivos do corpo. “Os resultados são crises de perda visual e/ou fraqueza em braços e pernas, potencialmente severas e com sequelas. A doença costuma aparecer em surtos – episódios agudos de inflamação –, seguidos de melhora, inclusive sem tratamento, mas possivelmente com sequelas permanentes.”
Os principais sintomas da neuromielite óptica são: neurite óptica, caracterizada por dor no olho e perda visual, muitas vezes importante, eventualmente acometendo os dois olhos; e mielite longitudinalmente extensa, uma inflamação na medula que causa fraqueza, dormência e, às vezes, dor nas costas, perda de controle das pernas, de urina e de fezes. O Dr. Eduardo nota, ainda, que, em casos mais raros, pode ocorrer a síndrome da área postrema, caracterizada por náuseas soluços persistentes e vômitos, decorrentes de uma lesão na referida área.
“Por que essa doença era tão confundida com a esclerose múltipla?” De acordo com o Dr. Eduardo, isso acontecia porque, de fato, alguns sintomas das duas doenças podem ser semelhantes. “Mas – ele frisa – a neuromielite óptica tem outra origem, outra evolução, outros anticorpos relacionados e, com algumas exceções, responde mal aos tratamentos voltados à esclerose múltipla. Mais do que isso – ele alerta –, alguns tratamentos para esclerose múltipla podem até mesmo piorar a evolução da neuromielite óptica.”
O diagnóstico dessa doença é baseado na demonstração de um anticorpo específico, chamado anti-aquaporina 4. “Se esse anticorpo estiver presente no sangue ou no líquor, o diagnóstico será muito claro. Se estiver ausente, porém, não chega a excluir a doença, pois ainda pode ser o caso de uma variante, como a síndrome MOG (doença parecida com a NMO), ou uma neuromielite óptica soronegativa.”
Como explica o Dr. Eduardo, o foco do tratamento é prevenir novos surtos e controlar o processo inflamatório. “Os principais tratamentos incluem: imunossupressores, por exemplo, medicações orais como a azatioprina e o micofenolato, ou mesmo medicações mais potentes, como rituximab; corticoides nas crises agudas; e, se o tratamento com corticoide não aplacar os surtos, podem-se realizar procedimentos de plasmaferese e a administração de imunoglobulina. Não custa reiterar que algumas medicações utilizadas no tratamento da esclerose múltipla, como o interferon, podem eventualmente piorar o quadro de neuromielite óptica.”
O Dr. Eduardo finaliza salientando que essa doença autoimune é séria, podendo causar perda de visão e paralisia se não for tratada corretamente. “Mas o diagnóstico clínico acertado e o tratamento adequado permitem controlar os surtos e preservar a qualidade de vida.”