Delirium, como explica o Dr. Eduardo Carabetta – médico neurologista –, é uma alteração súbita da consciência e da cognição, geralmente causada por algum fator físico sem relação direta com o cérebro. “É uma situação em que o cérebro literalmente entra em curto-circuito, embora o problema em si não esteja só no cérebro, mas no que está acontecendo no corpo como um todo.”
Em linhas gerais, o Dr. Eduardo caracteriza o delirium da seguinte forma: “É aquele paciente que até ontem estava conversando normalmente e hoje aparece confuso, agitado, vendo coisas, agressivo e completamente desconectado da realidade.” Suas principais características são: começo súbito, ou seja, em horas ou dias; oscilação, com o paciente ora bem ora desorientado; atenção prejudicada, com incapacidade de manutenção do foco; alterações cognitivas, como confusão, desorientação e linguagem embaralhada; além de possíveis alucinações visuais, agitação ou, eventualmente, o contrário, apatia e lentidão.
Entre as causas comuns de delirium, podem-se destacar: infecções, principalmente urinária e pulmonar; febre, desidratação e distúrbios metabólicos; uso de benzodiazepínicos, que são remédios tarja preta usados principalmente para dormir; uso de opioides, como a morfina; uso de anticolinérgicos; mudanças no ambiente; privação de sono; dor mal controlada; e abstinência de álcool e drogas. O Dr. Eduardo nota que os idosos são os mais vulneráveis, principalmente aqueles que já apresentam alguma demência ou estão internados por qualquer outro motivo, como infecção urinária, obstipação e uso de medicações novas. O delirium também é comum em pós-operatórios e em UTIs, mas “é o tipo de quadro que não escolhe nem dia nem ocasião.”
É importante ressaltar que delirium não significa demência. O delirium começa de repente e oscila ao longo do dia, enquanto que a demência, ao contrário, instala-se lenta e progressivamente, sem mudança perceptível de um dia para o outro. O Dr. Eduardo salienta ser fundamental não confundir delirium com demência, a fim de não se perder a chance de tratá-lo adequadamente.
O diagnóstico é clínico, baseado nos sintomas e em escalas específicas, aplicadas pelos médicos assistentes. “O foco é descobrir o motivo pelo qual o paciente saiu de si, não havendo necessidade de exames específicos imediatamente, como, por exemplo, a ressonância.”
O Dr. Eduardo relata que o tratamento consiste basicamente em combater a “causa base”, seja ela uma infecção, um desequilíbrio metabólico, ou uma medicação mal ajustada. Também são adotadas medidas ambientais, como o estabelecimento de um ambiente calmo, com pessoas próximas, e a regularização do ciclo sono-vigília, pois é muito comum os pacientes em delirium ficarem acordados e agitados durante a noite e dormirem durante o dia. Caso ocorram quadros de agitação perigosa para o paciente e para terceiros, medicamentos devem ser administrados, mas com critério, tendo em vista que alguns podem levar à piora do quadro. Como alerta o Dr. Eduardo, o delirium é uma condição urgente, séria, que, se não receber a devida atenção, pode levar a complicações, internações mais longas e, a depender da causa base, representar risco de morte. “Por outro lado, se tratada corretamente, é potencialmente reversível, sendo, portanto, de extrema importância, na presença dos sintomas citados, a busca por atendimento médico especializado, a fim de que se possa diagnosticá-la e tratá-la adequadamente, o quanto antes.”