O Dr. Eduardo Carabetta – médico neurologista – nos convida a imaginar o seguinte cenário: “Uma pessoa está bem, saudável, às vezes recém-recuperada de uma gripe ou de uma diarreia e, de repente, começa a sentir formigamento nos pés, depois, fraqueza nas pernas, depois, não consegue mais andar e, em alguns casos, não consegue sequer respirar. Parece absurdo, mas é real. Isso é a síndrome de Guillain-Barré – uma emergência neurológica, que exige ação rápida.”
Como ele explica, trata-se de uma doença autoimune aguda, caracterizada pelo ataque do sistema imunológico aos nervos periféricos, que são responsáveis pelos movimentos e pela sensibilidade. “O ataque destrói a bainha de mielina, que reveste os nervos, interrompendo a transmissão de impulsos elétricos, a ponto de o corpo começar, literalmente, a desligar.”
Em geral, a doença começa alguns dias ou semanas depois de um quadro infeccioso comum – como gripe, diarreia ou até mesmo uma vacina – e a pessoa começa a apresentar formigamentos nos pés e nas mãos; fraqueza que sobe gradativamente pelas pernas; redução dos reflexos; e, em casos graves, dificuldade de engolir, falar ou respirar. “O padrão clássico dessa doença – nota o Dr. Eduardo – é a fraqueza ascendente, que começa nas pernas e pode chegar até as musculaturas respiratória e facial.”
A causa exata da síndrome de Guillain-Barré ainda não é totalmente compreendida. Sabe-se, porém, que, após certas infecções – especialmente por uma bactéria chamada Campylobacter jejuni, causa comum de diarreia –, o sistema imunológico se confunde e passa a atacar os próprios nervos. “Em vez de combater a bactéria ou outro qualquer gatilho ou inimigo, ele atira no próprio exército, literalmente.” O Dr. Eduardo salienta ainda que a doença não é contagiosa e que o gatilho pode ser uma infecção comum, mas a resposta autoimune é individual.
Vale notar que existe, também, uma forma menos comum, chamada variante de Miller-Fisher, que pode se manifestar com desequilíbrio, paralisia dos olhos e ausência de reflexos.
O diagnóstico da síndrome de Guillain-Barré é feito por avaliação clínica. O histórico do paciente e o exame físico definem a hipótese diagnóstica num caso típico, a qual pode, contudo, ser confirmada através da coleta de líquor, que mostra aumento da proteína com a celularidade normal, o que classicamente é chamado de dissociação proteíno-citológica. A comprovação definitiva é feita pelo exame de eletroneuromiografia, que mostra como os nervos estão conduzindo os impulsos. “É, no entanto, importante lembrar – ressalta o Dr. Eduardo – que a eletroneuromiografia pode, em casos leves, apresentar resultados normais e demorar algumas semanas para começar a mostrar alterações.”
Para o Dr. Eduardo, o tratamento é o cerne da questão: “Tempo é nervo. Quanto mais cedo tratar, melhor.”. O tratamento envolve: imunoglobulina humana, que ajuda a bloquear o ataque do sistema imunológico contra os nervos; plasmaferese – uma espécie de lavagem no sangue, para retirar os anticorpos agressivos –; e suporte intensivo, como fisioterapia, reabilitação e, em alguns casos, suporte respiratório.Como observa o Dr. Eduardo, “a maioria dos pacientes melhora com o tempo, mas a recuperação pode ser lenta e a doença, embora em poucos casos, pode deixar sequelas. A síndrome de Guillain-Barré – ele alerta – é um quadro raro, mas grave. Quanto mais cedo for reconhecido, maior a chance de recuperação completa. Por isso, na presença dos sintomas descritos, é fundamental procurar atendimento médico imediatamente.”